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Quem vê aquilo que é proibido aos "olhos mortais" também pode ser despedaçado.Como acontece no mito do caçador Acteon, despedaçado por seus cães ao ver Ártemis tomando seu banho costumeiro em uma fonte.Uma deusa revigorando sua virgindade que era sinônimo de autonomia.Para Calímaco, Tirésias foi cegado por acidentalmente ver Athena tomando banho em uma fonte, novamente temos a questão da retomada da autonomia do feminino.
Outras fontes como Hesíodo, contam que Tirésias foi escolhido por Zeus e Hera, para decidir se era o macho ou a fêmea que tinha mais prazer no ato sexual.Pela sua resposta espirituósa de que a mulher desfruta mais do que o homem, Hera o puniu com a cegueira.E Zeus deu-lhe o poder de vidente.A parte mais antiga do mito de Tirésias é o encontro com um casal de serpentes, um tema inegavelmente "ctônico" que indica extrema antiguidade. O tom de gracejo da briga doméstica de Zeus e Hera, assinala um enfeite posterior.
Camile Paglia utiliza "Tirésias" como um dos diversos tipos de Persona Sexuais, de seu livro homônimo, onde:"(...)Adoto o nome "Tirésias" para uma categoria de andróginos, o homem nutridor ou mãe masculina.Ele pode ser encontrado em esculturas de deuses fluviais clássicos, na poesia romântica (Wordsworth e Keats), e na moderna cultura popular (convidados de programas de entrevistas na televisão)."
Outro exemplo de transexualismo e dons proféticos nos mitos gregos, podem ser encontrados no Oráculo de Delfos.Este era um dos locais mais sagrados do antigo Mediterrâneo e inicialmente consagrado a deídades femininas.Sua guardiã ou quem sabe guardião original era uma serpente, muito semelhante aos modernos dragões da fantasia chamado Python, que virá a ser proféticamente morto pelo novo Deus-Sol: Apolo.Uma referência as invasões dos Dóricos e outros povos no mediterrâneo e a substituição de uma deídade feminina agrícola por uma masculina e caçadora.
Na abertura da Eumenides, de Esquilo é narrado pela profetisa que Delfos era consagrado a deídades femininas em um passado remoto. W. F. Jackson Knight afirma que "Delfos significa o órgão gerador feminino." Já Camile Paglia acrescenta que (...)Descobriu-se que o delta simboliza o púbis feminino ate mesmo em sociedades tão distantes como as da selva brasileira. O oráculo de Delfos era chamado de Pítia ou Pitonisa, nome tirado da gigantesca serpente Píton, morta pelo Apolo invasor. A lenda diz que o oráculo era enlouquecido por vapores que subiam de uma fenda na terra, sob a qual estava a serpente ctônica em decomposição.(...) 0 oráculo era a grande sacerdotisa de Apolo e falava por ele. Os peregrinos, eminentes e subalternos, chegavam a Delfos com perguntas e partiam com respostas crípticas.(...)O oráculo profetizante foi o instrumento do deus da poesia, uma lira na qual ele tocava."
Para E. R. Dodds:"A Pítia tornou-se entheus, plena deo: o deus entrou nela e usou os órgãos vocais dela como se fossem seus, exatamente como faz o chamado "controle" na moderna mediunidade espirita; e por isso que as falas de Apolo são sempre ditas na primeira pessoa, jamais na terceira".
O processo é também associado ao estado de êxtáse, através do consumo religioso e ritualizado de "enteógenos", onde a deídade presente/associada em determinado tipo de vegetais, com propriedades de alteração de estado de consciência é consumida.
Existe um texto do autor Marcos Torrigo, no site www.tribosdegaia.org onde a questão do Enteógeno é devidamente aprofundada.Valendo lembrar que na moderna Subcultura Vampyrica não existe nenhuma forma de apologia ao consumo de elementos que alterem estados conscienciais lícitos ou ilícitos.
O transe profético era encontrado nos antigos cultos de fertilidade da terra, do norte da rússia e dos eslavos, germânicos, celtiberos e muitos outros.No leste europeu o elemento profético era particularmente presente nos tempos da celebração do Pentecostes católico.Onde integrantes dos muitos cultos de fertilidade da terra, vagavam pelas cidades profetizando vestindo máscaras, longas capas, peles e espadas e carregando bastões e outros instrumentos.E se roubassem ou cometessem delitos, eram deixados impunes.
Outro elemento interessantíssimo sobre o nascimento anunciado de Apolo, o confronto com Píton é a curiosa adaptação do mito, presente no Apocalipse de São João.O autor encontrava-se na Grécia naquele período, nos arredóres dos bosques oraculares de Dordona, onde as práticas que utilizavam enteógenos ainda eram ativas.
Encerro o tópico com as palavras de Camille Paglia:"(...)Isso se assemelha ao ventriloquismo que Frazer atribui aos xamãs em transe. Michelangelo usa a metáfora délfica num madrigal em que compara uma virago renascentista, a intelectual e poeta Vittoria Colonna, ao oráculo: "Um homem numa mulher, na verdade um deus, fala pela sua boca". O oráculo de Delfos e uma mulher tomada pelo espirito de um homem. Ela sofre usurpação de identidade, como as transformações sexuais mentais dos grandes dramaturgos e romancistas. Designo como "Pitonisa" outra categoria de andrógino, do qual meu melhor exemplo será a sibilina atriz Gracie Allen.(...)"

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