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O HOMEM-MULHER NO ROMANTISMO

 

Lord A:.

 




Para entender este tópico, solicito atenta leitura dos tópicos anteriores deste ensaio. Atuação e platéria são temas extremamente inteligados no vampirismo dos romances.

Entenda atuação como uma figura hierárquica e platéia como uma (ou mais) figura(s) submissa(s) ou "entregue" ao atuante hierárquico - quase em velado tom de prece.Tal figura é gentilmente chamada de "homem-mulher", pelo posicionamento passivo que é exatamente o contrário do comportamento esperado por um homem, na cultura dominante ocidental.Vamos dar uma olhada mais aprofundada nos elementos que constituem o homem-mulher dos romances "vitorianos":

"(...)Wordsworth foi o primeiro a notar o passivo sofrimento do Marinheiro. Na edição de 1800 de Lyrical ballads, ele relaciona os “grandes defeitos” do poema: “primeiro, que a principal pessoa não tem caráter nítido [...] segundo, que não age, mas estão agindo sobre ele constantemente (...).

 
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"(...)Bloom fala da “extraordinária passividade” do Marinheiro. Graham Hough compara a imobilidade do navio com a ` `completa paralisação da vontade”. George Whalley vai mais longe: “A passividade do Marinheiro é também a de Coleridge"(...)”.

"(...)Minha leitura de The ancient mariner faz dessa passividade o fato psicológico central do poema. Rejeito as interpretações morais, tipificadas pelo ensaio canônico de Robert Penn Warren.

"(...)Edward E. Bostetter contesta Warren ponto por ponto: “O poema é a versão morbidamente auto‑obcecada de um homem que, por seu bato, se tornou centro de atenção universal”. Duzentos marinheiros, agonizantes, olham desconsolados para o Marinheiro. O homem‑heroína, por autodramatização operística, é uma prima donna que triunfa através de um requintado sofrimento público. Tem sobre si os olhos do universo. O círculo de olhos de Coleridge é em parte repreensão paranóica, em parte adoração erotizante. Os olhos crucificam seus protagonistas, pregando‑os em imobilizada passividade, um misterioso medo do mundo."

É também dito que o "homem-mulher" é um personagem masoquista, pois ele gosta e aprecia o sofrimento que lhe é causado e ainda anseia é sedento por uma conversão ao atuante, expressa como uma sede de violação a ser realizada pelo atuante.

Todo o processo descrito no parágrafo anterior formam um culto a personalidade.Onde o homem-heroína masoquista, entrega-se ao êxtase, epifânia e revelação desenfreado e homoerótico fortemente reforçado por exibicionismo e voyeurismo...isto pode acontecer na arte ou em qualquer processo religioso - fosse entre xamãs perdidos nas estépes ou em algum culto monoteísta da esquina.Arte e Religião vêm da mesma região do cérebro no final das contas.

"(...)A fórmula mágica do sacerdote‑deus num culto da personalidade conduz ao intercurso público ritual. Clímax é epifania e transfiguração. Exibicionismo sexual e voyeurismo estão no âmago da arte. Aqui, como em Christabel, a sede de conversão se expressa como sede de violação.(....)"

"As sagas do homem‑heroína estão sempre artisticamente ameaçadas pela serpentina dinâmica da auto‑identificação.(...)uma auto‑identificação tão extrema do poeta que, por sentimentalismo, debilita o texto. (...)A rima é mero carrilhão ritualístico, a negra nuvem do destino.

As estrofes caem na comédia pastelão e seguem indiferentes.(...)The ancient manner é um dos maiores poemas em inglês, mas o que consegue é quase em desafio à linguagem. Visão e execução muitas vezes divergem barbaramente.

(...)Dessa mesma disjunção de forma e conteúdo sofre Poe, herdeiro de Coleridge. Os franceses acusaram os Estados Unidos de desdenharem seu maior poeta, Poe, que talvez soe melhor na tradução de Baudelaire que em inglês. Poe, como Coleridge, é um gigante da imaginação, e a imaginação tem suas próprias leis. Nos contos de Poe e nos poemas de mistério de Coleridge, o daimônico se expressa cruamente. Dioniso sempre sacode as regras da forma apolínea."

* Em itálico, extraído de Personas Sexuais de Camile Paglia


[o conteúdo deste texto pode ser ampliado e revisado com sua colaboração através do mail: officinavampyrica@yahoo.com.br ]


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